quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Fim de ano = porto de chagada e da partida


Carregado pelas águas do tempo, parti mais um ano de nossas vidas. O bom é que outro chega e no mesmo porto. Somos nós nosso porto de chegada e de partida do relógio solar para a galáxia que gira em torno do sol e o relógio biológico que conta o consumo das nossas células. Em cada partida de um ano e chegada de outro nossa bagagem de viajante do tempo, cresce; tanto pelas experiências vividas, como de bagagens materias.

Esse ano pode ser o começo de um tempo divisor de águas que quem sabe venha a trazer novas águas, a da esperança, das mais diversas condições humanas = sociais e pessoais. Foi um ano desafiador, onde os índices negativos superaram os positivos, principalmente para os pobres que vivem das sobras, das migalhas que caem das mesas abastadas.

Para os que não se beneficiam da farra do patrimônio comum, principalmente o público, as marcas que os anos deixam são as mãos calejadas, os pés deformados, as rugas profundas no rosto que imitam os leitos d'água em tempo de seca e o tempo vivido de anos passados não é nenhuma medida para sonhar no ano que chega.

Falta pouco para chegarmos ao porto final da viagem de mais um ano, o dia 31 de dezembro e mais um dia chegamos num novo porto, onde somos convidados a embarcarmos; se de barco ou bagagem nova, só vai depender de nós. Caso contrário sai ano, entra ano e tudo continua igual!

domingo, 22 de dezembro de 2013

Marirana


Essa é uma das frutas que está no DNA da minha infância coariense. Fazia muito tempo, mas, muito tempo mesmo que não encontrava uma dessas e encontrá-la levou-me por uma viagem no tempo;  a tempos idos, daqueles que a melhor frase para descrevê-lo é: "velhos tempos, belos dias".

Hoje andando pelo mundo das estradas d'água e de matos me deparei com uma árvore da fruta na beira do caminho de uma Vila no Paranã do Iauara no município de Beruri, centro do estado do Amazonas... estava carregada e lá fui eu atrapalhar e atrasar a equipe. Armado de um pedaço de árvore seca, fui  jogando árvore acima, numa mira sem rumo, acertando mais na imensidão de folhas que nas frutas espalhadas em seus galhos. Com o braço cansado, quase saia de mãos abanando, caso não fosse o socorro dos amigos expertes nas mangueiras dos vizinhos!

Tudo nessa fruta me conquista = sua cor que vai do laranja ao vermelho cor de carne viva, quase cheia de sangue a pulsar nela. Seu gosto e cheiro indescritível e sua textura pastosa. Algo sem igual.

Um creme feito por Deus, quase como que de carne humana, para nós humanos!


quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

 
” é o tema oficial do Boi-Bumbá Garantido para Festival Folclórico de Parintins de 2014. Tem tudo para fazer sucesso, principalmente dentro da Amazônia, pois, nosso povo amazônida é um povo de muita fé e nesse tempo de muita fé e pouca igreja ou religião, o boi tem tudo para encontrar ressonância do seu tema oficial por toda parte.

Certo que o Garantido não vai explorar a fé, um credo de uma religião ou de uma igreja, mas, a fé própria do ser humano que acredita que é possível fazer isso e aquilo, chegar nesse ou naquele lugar com suas potencialidades superando os limites. Porém vai explorar a fé do homem amazônico em seu mundo místico e mítico que é a Amazônia.

Na Amazônia, nosso planeta líquido e verde a fé ultrapassa de longe a dimensão física e mistura os mundos materiais do corpo e consciência com o mundo da florestas e seus encantados, incluindo o mundo dos santos para além do domínio da Igreja Católica. Os das nossas promessas que têm como mãe e madrinha em Parintins Nossa Senhora do Carmo.

Escolhendo esse tempo o boi acerta em cheio nessa temática tão antiga e tão atual; hoje sendo manipulada para os diversos interesses, seja econômico, como políticos e de poder, essa dimensão que mais tem seduzido o ser humano em toda a história da humanidade.

Na terra do gás e do petróleo as canções/toadas do boi vermelho com certeza irão encantar os coarienses, visto que a fé manda e desmanda, e nesses últimos anos tem decidido o destino político do município milionário do interior do Amazonas. Esse mundo de fé é tão forte que temos um papa com um padre como assistente e um exército de fiéis, beatas, devotos e fanáticos que devoram qualquer um que não reza por/para ele; e quer ser o chefe sem concorrente de todas as lideranças religiosas ... se consegue? É outra história!


terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Coari, uma cidade sitiada


Na saída de Coari havia vários policiais de polícias diferentes revistando as bagagens de todos. Pode ser uma coisa boa enquanto nossos portos continuarem serem como os antigos portos de lenhas e não chegarem a modernidade com ferramentas tecnológicas capazes de fazer varreduras, nas bagagens, nos corpos e nas almas.

Como princípio a revista das bagagens é uma boa busca como parte da missão de encontrar drogas. Porém, é inútil se procura drogas em bolsas e não prender os traficantes que importam as drogas do estrangeiros e fazem chegar em qualquer porto da Amazônia e do Brasil.

Vendo os policiais fiquei pensando na "Operação Choque de Ordem" que está sendo realizada em Coari. A População sentiu o modo que a "Operação" começou a ser realizada, chegando e exigindo documentos sem dar tempo e condições para as pessoas se prepararem para apresentarem os devidos documentos, tantos dos empreendedores da noite que tiveram seus estabelecimentos fechados, como de usuários dos diversos veículos que foram apreendidos.

A cidade está sendo vigiada de perto, melhor dizendo, há um faz de contas para prender peixes pequenos do mundo do tráfico como forma de dizer que estão trabalhando. Um cidadão pode ter seu negócio fechado, seu veículo de uso pessoal ou de trabalhado preso ou ser processado por incomodar.

A cidade de Coari está sitiada. Parece que estamos em guerra e o pior, contra nós mesmo!


domingo, 1 de dezembro de 2013

Rituais de Morte


O mundo ocidental, cristão se veste do mundo pagão capitalista chinês e com esses óculos celebra a maior festa de Cristo, seu nascimento. Nós coarienses nos vestimos, melhor dizendo, vestimos nossa cidade com as roupas dos outros. O Natal é a festa que pagamos para dizer que continuamos colônia; não mais de Portugal, mas, das estruturas econômicas consumistas que usam os meios de comunicação para espalhar mundo afora uma cultura onde o que conta é comprar, gastar.

Nosso Natal celebrado na Praça Sant'Ana e São Sebastião é a cara do desprezo cultural a cultura amazônica/coariense que há mais de 500 anos é massacrada pelo mundo de fora que diz ser o melhor e o mais bonito. E essa gente de fora, hoje, são os da capital da Província do Amazonas que beberem da cultura de um mundo que não é o nosso e ficaram porres a tal ponto de não conseguirem enxergar a si mesmos no espelho.

O balé dançado pisa nas mil e uma danças que no solo coariense foram dançadas por milhares de anos e perdidas nas matanças feitas na base da bala e do preconceito. As roupas e maquiagens revelam mundos estranhos ao que sempre foram vividos e a música e o canto calaram as vozes já silenciadas pela força do poder do mundo de fora.

Nossos cantos, nossas danças, nossas pinturas/maquiagens, nossos rituais foram sepultados incimentados e de asfaltados para não desenterrados.

E hoje com vestes brilhosas de cortes da TV, com cantos e cantatas de crianças e adultos vestidas com batas de Papai Noel aplaudimos emocionados os cantos e danças fúnebres que cantam alegrando quem tem a grana que paga o enterro da nossa cultura! 

* Infelizmente o nosso movimento indígena pouco caminhou até agora na busca do nosso resgate cultural. Quem sabe, devagar um dia chegamos!


quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Cara a Cara


No decorrer desses últimos anos os erros na arquitetura urbana na terra do gás e do petróleo são gritantes. Apesar da rigidez nas exigências de alguns órgãos da administração municipal. Isso para os outros, é claro. Tente fazer uma obra e verás a maratona que terás que superar, a burocracia é tanta, que quem não tem paciência e algum dinheiro, desiste.

Das burrices no processo de "enfeiamento" da cidade, gritam a Escola N. S. P. Socorro que teve sua vista para a entrada do lago e do Solimões vedada e da Escola Presidente Kennedy que teve sua visão para as pessoas isoladas. É que os engenheiros e arquitetos eram cegos e só entendiam de cegueira; refletiram nessas instituições de educação o que viam dentro de si, nada.

Porém, há anos que as equipes de construções acertam o local exato dessa casa que estão construindo acima. Parece que tacam os plumos, acertam as medidas, tomam as distâncias, definem a linha no olho, esses bem abertos, vendo até fechados e mandam pregos, martelos, serrotes e pronto. No lugar com todas as medidas.

Só não vê quem é cego e para um bom entendedor, basta um pingo ou melhor, nesse caso, um prego!


quarta-feira, 27 de novembro de 2013

A luz do dia


Minha maior surpresa essas dias em Coari foi de ver o finado Tijuca ser destruído. Faz tempo que agonizava no silêncio do abandono e do desprezo. Silenciosamente as mudanças foram acontecendo sem que ninguém tomasse qualquer providências de cuidado, era uma catacumba com defuntos vivos mortos movidos pela droga, na última sombra da esperança de renascerem, sairem do túmulo.

O Tijuca era um símbolo que marcou a vida de gerações de coarienses de um tempo que já não existia. Talvez sua destruição completa a morte definitiva de tempos idos que continuam caminhando na lembranças de saudosistas de uma Coari de um passado distante. Era um fantasma de si mesmo.

Enquanto municípios e estados restauram e conservam seus prédios, patrimônios arquitetônicos, culturais e históricos, em Coari arranca-se pela raiz os prédios antigos como forma de apagar qualquer rastro de história. Leva-se ao pé da letra que um "povo sem história é um povo sem memória". Os últimos que sobram é o Lopes Braga e a Nave central da Catedral que teve seu presbitério de azulezo importado trocado por cerâmica barata, de mal gosto, preta, muito parecida com um caixão, talvez o caixão do município que há muito espera para ser sepultado.

O assassinato está acontecendo a luz do dia, debaixo de um sol de 40 graus e ninguém para dizer "ai". Era uma vez o Tijuca, ícone cultural de um tempo que se vai sem deixar rastro de uma história ou de qualquer lembranças de um povo que a única coisa que deve guardar é o santinho dos donos de seu títulos!


terça-feira, 26 de novembro de 2013

Leite derramado

Lendo o que os jovens coarienses escrevem no Facebook e ouvindo as pessoas pela cidades, chego a conclusão que essa é uma geração fadada a angústia de ter os seus sonhos castrados na raiz e isso não só pelo governo atual, mas, o passado também mostrou ser portador de armas de morte capazes de fazer o mesmo jogo de todos, mesmo, os dos que virão no futuro.

O jogo é simples, apenas os que estão no poder controlam os milhões repassados ao município pelos lucros da Petrobras com o petróleo e o gás encontrados no solo/sub-solo coariense.

As possibilidades que os estudos podem dar a atual geração de jovens é muito maior que a da minha geração ou de outros jovens. Porém, as estruturas do município não respondem na criação de oportunidade de empregos e rendas para uma quantidade de jovens melhor preparados, ao menos, na teoria. Por isso digo acima, a possibilidade de uma geração angustiada que chegada a um ponto da história com uma enorme quantidade de coisas disponíveis para serem consumidas e sem poder de compra para desfrutá-las.

A sociedade de consumo também trabalha para isso com um mundo que mexe apenas com inutilidades, dando a impressão que elas são as bases da sociedade tecnológica. Sabemos telefonar e usar o que um telefone nos apresenta, porém, não sabemos como ele funciona e nam o que tem nele que o faz funcioná-lo. Mas, isso é material para outra postagem.

Assistimos pela TV e nas ruas coarienses uma alavanche de jovens que se manifestaram inquietos, protestando por um mundo onde os bens de consumo possam ser também consumidos por eles e não só por uma minoria, e gritanto por serviços públicos de melhor qualidade, principalmente educação e saúde. As eleições no Brasil vão mostrar que a pobreza da população e a ganãncia de uns poucos, que quem ganha uma eleição são os que melhor sabem comprar votos.

Enquanto isso os jovens corienses seguem tentando encontrar as esperanças para a realização de seus sonhos se agarrando aos ventos da história que passa mais fora da entrada do lago que perto dos poços de gás e petróleo. Compromissados com eles, ninguém; apenas a manutenção da alienação para ganharem os votos e a beleza da juventude, os dois cheirando a leite. Leite derramado!


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Na terra de Deus e do diabo


Cheguei em Coari essa madrugada. Faziam anos que não chegava na cidade nesse horário. Meio sonolento sai da lancha para um porto que anuncia com todos os sinais que aportamos num mundo abandonado. Como pode ser que depois de anos de riqueza ainda não temos um porto decente tanto para cargas, como para as pessoas. Fiquei pensando como deve ser o embarque e desembarque dos idosos e doentes. O cartão de entrada diz como eles são tratados.

Descendo a prancha num malabarismo para chegar embaixo sem levar nenhum tombo, o caminho dela até a "escadaria" feito de areia do tempo misturado com barro vermelho (não tapete vermelho) é um convite a pensar de como é aquele caminho para ser percorrido com sapatos de trilhas num dia chuvoso = uma mistura de areia, barro liguento com cola e abiu verde. Sai-se de tamanco sem querer.

Na Praça o Cristo de braços abertos a espera da foto digital, silencioso como quem vem aguentando o tranco de tudo da humanidade há dois mil anos. Na terra do gás e do petróleo não é diferente, onde por amor tanto tem dado e as riquezas naturais que eram para ser para todos, enriquecem uma pequena minoria nesses últimos anos da história do município. Tanto faz de um governo como de outro que até agora sentaram no trono do Palácio 02 de Agosto.

De manhã fui ao mercado, a fartura de peixe ali existente me lembra de quão é abençoado esse município, mesmo tendo suas riquezas tão mal administradas, que não é capaz de distribuir rendas para todos e uma grande parte da população vive na pobreza e na miséria. Até quando ambas as situações vão aguentar é a questão que o tempo vai responder.

Do mercado a feira foi inevitável não parar com um ou outro, em geral comerciantes que começavam a debulhar um rosário de queixas diante do movimento do comércio que anda se arrastando a passos de tartarugas. E eu, com os meus botões ia dizendo nada de novo debaixo do sol das terras coarienses!


domingo, 24 de novembro de 2013

Feira Hippie

Geralmente quando estou em Manaus aos domingos, vou na feira domingueira da Avenida Eduardo Ribeira. "Feira Hippie". Chamada por alguns como feira de artesanatos. Na verdade não é uma coisa, nem outra, mas, é muito mais ou é tudo isso muito mais. Há espaços para quem procura encontrar o seu espaço.

Gosto de começar a feira antes de feira numa ação beneficente de um grupo espírita que há anos distribui sopas em vários pontos da cidade para pobres e moradores de rua. A chave está na fazer algo pelo outro com bondade e organização. A sopa é boa, eu mesmo já me beneficiei dela quando o bolso andava meio vazio, anos atrás.


Para muitos o começo da feira, antes de ir curiosiar ou comprar algo útil, uma lembrança ou inutilidades, nada melhor que forrar as tripas com um bom café regional. Depois de ter parado obrigatoriamente num artista de rua que faz seus quadros ali, ao vivo e com ferramentas nada convencionais. Alguns levam dependurados debaixo dos braços uma de suas obras de arte. Com ela a tapioca o x-caboclinho parece está completo. Com cuscuz, mandioca, banana frita e cará cozido. Fortalecido, vamos a feira.

Há artes, artesanatos e artistas para muitos gostos. Com material da floresta é possível encontrar mil e uma coisas. Seguindo há mundos e coisas para as mais variadas utilidades, desde a cozinha, passando pela sala e entrando para os quartos. É possível sair da feira com uma coisinha para cada ambiente do lar ou parte do corpo.

É um bom programa para a família ou solteiro, para os estrangeiros, imperdível. É uma micro amostra da arte espalhada pelo imenso vale Amazônico!