sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Quando as águas escurecem
Levou a boca a última colherada. Tudo naquele dia tinha sido diferente e devia ser. Já tinha se visto no espelho uma infinidade de vezes e parecia que sempre havia algo para arrumar, arrumava. Estava vestida com que achava decente, limpo, lindo, parecia que ia para uma catedral, um teatro europeu assistir Aída.
Tudo tinha que ser assim, afinal de contas estava no primeiro passo, no primeiro dia, do seu primeiro emprego. Nada podia sair errado, tudo perfeito.
Tinha sonhado com este momento por muito tempo e custou, como foi difícil, as vezes pensava que nunca ia conseguir, mas, conseguiu. Ia ser professora na zona rural, mais era tão perto, logo ali no Lago do Mamiá. Iria ir e voltar todos os dias, só isso já era muita coisa; muitos iam para tão longe, voltando só nos fins de semana, outros ainda para mais longe que só no fim do mês vinham para receber o salário e voltar de novo. Assim veria todos os dias o seu filho, amor de sua vida.
Essa talvez seria a razão maior deste emprego, o salário, era pouco, sabia, mais era seu, fruto do seu trabalho, já fora por demais ajudada por outros, pais e irmãos, agora seria o seu tempo, até que enfim ia também poder participar das despesas da casa.
Deixou a casa como se fosse a última vez que fazia isso, ação tantas vezes repetida, porém, sem a mesma sensação. Caminhou no calor do sol escaldante, se dirigiu até o ponto do transporte e esperou um pouco, o caminhão chegou, não era fácil subir e andar nesse tipo de transporte... será que não tem outro tipo de transporte para os pobres, questionou com seus botões. Sentiu quando o motorista pisou na acelerador e o pesado caminhão começou a andar, foi pela Estrada do Itapéu sentindo os solavancos dos buracos do caminho.
Logo depois do caminhão ter feito a curva e ter adentrado o ramal do Guarabira, avistou por cima dos ombros e cabeça, lá no fundo as águas escuras do Mamiá, a visão era linda.
Logo na descida o veículo percebeu que o tempo começou a mudar. Um vento forte começou a espalhar nuvens e o calor intenso do sol deu trégua, folga as árvores que mexeiam seus galhos, suas folhas parecendo bandeiras de time de futebol num estádio lotado.
Pensou a quase professora, tenho que ir, não posso me atrasar ou perder logo esse que é meu primeiro dia de trabalho, as pessoas da comunidade vão pensar que sou uma irresponsável. Posso perder outros dias, esse não.
Como estava adiantada não esperou o transporte dos professores, iria logo, assim chegaria lá antes do temporal cair. Pegou uma catraia, pequena canoa que estava no porto do lago para transportar quem precissase desse tipo de serviço. Colocou um pé na tábua do banco para passar para dentro da canoa e sentiu que a madeira parecia está no ar, solta. Avançou e entrou.
O catraieiro remava com movimentos se repetindo, a água escura era tão acolhedora para o remo, os músculos em movimentos, tudo parecia um gesto de amor.
O vento se fez mais forte, a água mais movimentada. Ela não sabia nadar. Um sentimento diferente começou a tomar conta de seus nervos, não era possível. É preciso se controlar, segurava com força seu material escolar, ali estava um mundo de saber e ele, esse mundo que levou tanto tempo para se desenvolver e ser aprendido, não poderia terminar assim, molhado.
O vento forte ficou pior quando a chuva começou a cair em grandes pingos que dóiam na pele. As águas do Mamiá enraivecidas como se fossem braços forte de polvos marinhos. Ela começou a rezar, agora já deixava de ser humano essa luta e pertencia ao mundo de Deus.
A canoa em movimentos cada vez mais inseguros, parecia uma formiga diante de um elefante que era o lago naquele momento.
Então o que temiam, aconteceu. Foram para água. Todos os três querendo se segurar na canoa, nesse momento lisa como sabão, violenta como um lutador de boxe. Por mais que tentassem não conseguiam segurar em nada, parece que aquele pedaço de madeira tão simples, tão pequeno estava contra eles.
Lutava com toda sua força, quanto mais se debatia, mais para o fundo do lago ia, começou a faltar as forças, tudo que via era água ficando cada vez mais escura. O líquido entrava na sua boca, em seu nariz e ia para o estômaco, para o pulmão. Suas roupas pesadas. Já não havia ar, só água, o pulmão encheu, a luz lá em cima foi se apagando, escurecendo, de repente tudo ficou escuro.
A vida, os sonhos do primeiro emprego e do primeiro salário se foram. A luz do saber foi apagada pelas águas escuras no Lago do Mamiá.