Nosso Voto!
Ao digitar a urna eletrônica, o eleitor está entregando a poderosa máquina do serviço público aos eleitos e aos partidos que representam, oas interesses corporativos que defendem, às mãos de quem nomearem para funções de governo. Serão homens e mulheres com poder de realizar e legislar; tornar o Brasil mais soberano ou prolongar-lhe a dependência; conservá-lo submisso ou altivo frente às potências estrangeiras; resgatar a produtividade desta nação ou mantê-la como cassino de especuladores; arruinar o nosso potencial de crescimento ou promover o desenvolvimento sustentável.
Graças aos impostos que pagamos, os eleitos passarão a viver por nossa conta, acompanhados de imensa fieira de assessores, com direito a gabinete bem equipados, transportes terrestre e aéreo, protno atendimento de saúde, e o poder de abrir portas como se dissessem "abracadabra".
Não qualquer candidato merece o nosso voto. Não o merecem aqueles que, uma vez eleitos, disfarçam a prepotência com a máscara da autoridade; também os cínicos, que sorriem aos eleitores à cata de votos, e os hipócritas, cujo discurso jamais pousa em suas práticas; e os que lembram dos pobres apenas em época de eleição e se despem da coluna vertebral diante dos abastados, incapazes de tratar com respeito os subalternos.
Negue-se o voto aos corruptos e aquem se cala em conivência com eles, e aos políticos que multiplicam "miraculosamente" seu patrimônio pessoal após ingressar na vida pública. Votar significa confiar em quem encarna os programas que defende, empenha-se na erradicação da miséria e na redução das desigualdades sociais, investe na melhoria da Saúde e da Educação, combate o desemprego e a fome, cuida do meio ambiente e da segurança pública, e preserva a soberania nacional.
Voto é consagração.
Em escrutínios terminados em empate há o voto de Minerva, deusa romana da sabedoria, cujo equivalente grego é Atenas. Na Odisséia, Homero destaca-a como "a deusa de olhos belos". Clariveidente, a filha de Júpiter escolhia o mais justo.
Há que digitar os números da urna como se o nosso voto fosse o de Minerva, de modo a arrancar o Brasil do impasse e do atraso, convictos de que, no futuro, não seremos decepcinados por aqueles que escolhemos. Do contrário, acima do peso de nossa frustação pessoal haverá o risco de ver este país abençoado por Deus resvalar ainda mais para a indeigência, comprometendo a nossa frágil democracia.
Do livro - Calendário do Poder de Frei Betto.
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